'Epidemia do suco': busca por corpo perfeito leva mais pessoas aos anabolizantes e preocupa médicos
Projeto da UNIFESP incentiva quem parar de usar "suco", gíria para anabolizante A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, em maio, em São Paulo, a...
Projeto da UNIFESP incentiva quem parar de usar "suco", gíria para anabolizante A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, em maio, em São Paulo, acendeu um alerta entre usuários de anabolizantes, conhecidos como “suco” nas academias. O atleta, que tinha cerca de 2 milhões de seguidores e falava abertamente sobre o uso de substâncias, morreu de forma súbita após problemas cardíacos. Relembre: Morre Gabriel Ganley, fisiculturista e influenciador, aos 22 anos O caso chamou a atenção para um problema que vai além do fisiculturismo. A pressão por um corpo considerado perfeito tem levado pessoas a recorrer a anabolizantes em busca de resultados mais rápidos, apesar dos riscos para a saúde. Gabriel Ganley: quem era o fisiculturista e influenciador que morreu aos 22 anos em SP Reprodução A reportagem do Fantástico, que foi ao ar neste domingo (9) mostrou os efeitos desse uso e acompanhou pessoas que decidiram abandonar as substâncias. Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), médicos criaram o projeto “Saindo do Suco com Segurança” para ajudar usuários que querem interromper o consumo. A iniciativa oferece acompanhamento de profissionais como nutricionistas e psicólogos durante o processo de recuperação. Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 'Força motriz' para chegar ao corpo ideal O influenciador e publicitário Paulo Gab conta que começou a buscar mudanças no próprio corpo ainda na infância e na adolescência. Magro, ele sofreu bullying na escola e passou a lidar com problemas de autoestima. “Eu fui uma criança e um adolescente muito magricela. E isso foi um problema para a minha autoestima, eu sofria muito bullying na escola.” No ambiente das academias, Paulo afirma que o anabolizante passou a ser visto por ele como uma maneira de acelerar os resultados. A substância se tornou parte da estratégia para alcançar o físico que desejava. “É muito comum o uso do anabolizante, justamente por ser uma força motriz que vai te dar um pouquinho mais de rapidez para chegar naquilo que a gente se pressiona para ter.” Com o tempo, porém, os efeitos começaram a aparecer também entre pessoas próximas. Dois amigos de Paulo quase entraram na fila de transplante de rins por problemas relacionados ao uso das substâncias. A experiência contribuiu para que ele decidisse interromper o consumo e procurasse atendimento especializado. Risco de morte é três vezes maior No projeto da Unifesp, Clayton Macedo, coordenador da iniciativa, recebe usuários que querem abandonar os anabolizantes. Segundo ele, alguns chegam a combinar três tipos diferentes de substâncias, inclusive produtos que não foram estudados em humanos. A morte de Ganley também provocou uma procura maior pelo atendimento. Macedo afirma que o caso fez surgir uma demanda de pessoas interessadas em suspender o uso de hormônios. Anabolizantes Reprodução Entre os principais riscos está o aumento da probabilidade de problemas cardiovasculares. Segundo o médico, usuários de esteroides anabolizantes têm risco de morte três vezes maior e possibilidade nove vezes maior de desenvolver miocardiopatia, doença que afeta o músculo cardíaco. O uso das substâncias também pode afetar fígado, rins e sistema hormonal. Entre as possíveis consequências estão hepatite medicamentosa, tumores hepáticos, infertilidade e alterações comportamentais. A pressão pelo corpo começa antes Para os profissionais da Unifesp, a relação problemática com a própria aparência pode começar muito antes do primeiro contato com os anabolizantes. O professor de bioquímica Paulo de Melo também passou pelo processo de abandonar as substâncias. Na infância e na adolescência, ele era obeso e sofreu bullying. Anos depois, já com outro corpo, precisou lidar com uma nova dificuldade: aceitar a perda de parte da massa muscular conquistada durante o uso de anabolizantes. Ele relaciona essa experiência ao filme “A Substância”, estrelado por Demi Moore, que aborda a obsessão com a aparência. “Quando eu assisti a Demi Moore se tornando aquele monstro, eu me vi naquele monstro.” Paulo está há um ano sem usar anabolizantes. A adaptação, segundo ele, tem sido difícil principalmente pelo aspecto psicológico, já que durante muito tempo se acostumou a enxergar o próprio corpo de outra maneira. “Um problema gigantesco de saúde pública” Para Clayton Macedo, a influência das redes sociais ajuda a alimentar o consumo de hormônios por pessoas que buscam resultados rápidos. O médico classifica o cenário como uma “epidemia de mau uso de hormônios” e critica também as redes sociais e profissionais que, segundo ele, passam uma falsa sensação de segurança aos pacientes. A avaliação é que o fenômeno deixou de ser restrito ao universo do fisiculturismo e passou a representar uma questão mais ampla. “Nós encaramos isso como um problema gigantesco de saúde pública.” Macedo afirma ainda que pessoas sem deficiência hormonal não deveriam utilizar essas substâncias com finalidade estética e que nenhum acompanhamento médico é capaz de garantir que o uso será seguro. Projeto atende pessoas de diferentes profissões O projeto “Saindo do Suco com Segurança” oferece acompanhamento com nutricionistas, psicólogos e outros profissionais para ajudar os pacientes a enfrentar o processo de interrupção do uso, incluindo as dificuldades psicológicas e possíveis recaídas. Atualmente, 158 homens e quatro mulheres, com idade média de 38 anos, são acompanhados pela iniciativa. O grupo é formado por pessoas de diferentes profissões, como advogados, empresários, policiais e trabalhadores da construção civil. Para os especialistas, o perfil reforça que o uso de anabolizantes não está limitado a atletas ou fisiculturistas. Andrea Fioretti, coordenadora do Núcleo de Endocrinologia do Esporte da Unifesp, afirma que muitos pacientes apresentam uma massa muscular exuberante, mas não necessariamente praticam fisiculturismo. Há ainda pessoas que começaram a utilizar anabolizantes na adolescência e permanecem por anos consumindo as substâncias. Abandonar o “suco” também significa aceitar mudanças na aparência. Para Paulo Gab, que já interrompeu o uso, a decisão não representa uma perda. “Eu estou muito pronto e estou muito feliz, disse" O influenciador e modelo Gabo, que também passou pelo projeto, destaca a forma como os profissionais conduzem o atendimento. Segundo ele, o ambiente permitiu falar sobre questões que não conseguia abordar com facilidade. Paulo de Melo espera que mais usuários procurem ajuda, mas ressalta que cada pessoa tem seu próprio tempo para tomar a decisão. “A partir do momento que você escolhe ganhar uns anos a mais de vida, você escolhe levar uma vida mais saudável, você tá ganhando com certeza. Muito mais do que você tá perdendo.”