Caso Tainá: família afirma que advogado praticava diferentes tipos de violência durante o relacionamento

Família de jovem, vítima de feminicídio, relata histórico de agressão; namorado é suspeito A morte de Tainá Yarina dos Santos Cardoso, de 29 anos, contin...

Caso Tainá: família afirma que advogado praticava diferentes tipos de violência durante o relacionamento
Caso Tainá: família afirma que advogado praticava diferentes tipos de violência durante o relacionamento (Foto: Reprodução)

Família de jovem, vítima de feminicídio, relata histórico de agressão; namorado é suspeito A morte de Tainá Yarina dos Santos Cardoso, de 29 anos, continua repercutindo em Santarém, no oeste do Pará. Nesta quarta-feira (22), a família recebeu a equipe de reportagem da TV Tapajós para falar sobre o relacionamento de Tainá com o advogado Wlandre Gomes Leal e relatou situações de violência que, segundo eles, eram desconhecidas até então. Tainá Yarina dos Santos Cardoso, de 29 anos Reprodução ✅ Clique aqui e siga o canal g1 Santarém e Região no WhatsApp Wlandre Gomes Leal foi preso em flagrante no domingo (19), suspeito de feminicídio. Na segunda-feira (20), a Justiça converteu a prisão em flagrante em prisão temporária por 30 dias para garantir o andamento das investigações. No mesmo dia, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará (OAB-PA) suspendeu cautelarmente o exercício profissional dele pelo mesmo período e determinou a instauração de procedimento ético-disciplinar. Desde então, a Polícia Civil informou que laudos periciais, vestígios encontrados no apartamento, reforçaram a suspeita de feminicídio e, neste momento da investigação, afastam a hipótese de suicídio apresentada pelo investigado. Na terça-feira (21), o corpo de Tainá foi sepultado sob forte comoção. Antes do enterro, familiares e amigos fizeram uma manifestação em frente à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), onde cobraram justiça. O grupo foi recebido pela delegada Márcia Rabelo, que garantiu que as investigações continuarão. “Era só aparência”, diz mãe A mãe de Tainá, Sheila Batista dos Santos, contou que, no início do relacionamento, acreditava que a filha vivia uma relação tranquila. “No meu ver de mãe, era um relacionamento tranquilo. Pelo menos era isso que ele apresentava para mim, a forma como tratava minha filha quando estava na minha frente. Mas depois eu descobri que era só aparência. Lá dentro de casa ela estava sendo maltratada”, afirmou. Segundo Sheila, somente após a morte da filha vieram à tona relatos de agressões físicas, ameaças e episódios de violência que nunca haviam sido compartilhados por Tainá. “Depois eu soube que ele trancava ela no apartamento, arrastava ela dentro do carro e batia nela. A gente não sabia de nada porque ela não contava. Ele dizia que, se ela falasse, faria alguma coisa comigo ou com a filha dela”, relatou. A mãe também contou que chegou a perceber hematomas no corpo da filha, mas que acreditou na justificativa apresentada por ela. “Como ela era muito branca, eu perguntava: ‘Tainá, o que é isso?’. E ela respondia: ‘Mãe, eu sou branca, qualquer coisa fica roxo’. Mas eram hematomas grandes. Hoje eu vejo que eram marcas das agressões”, disse. Outro detalhe que passou a fazer sentido para a família depois da morte foi a forma como Tainá se vestia. “Ela vinha sempre de blusa de manga comprida, mesmo naquele calor. Eu nunca imaginei que era para esconder as marcas. Só fui entender depois que perdi minha filha”, contou Sheila. Relacionamento começou quando advogado atuava em processo da vítima Segundo a mãe, Tainá conheceu Wlandre Gomes Leal quando procurava um advogado para conduzir o processo de separação do pai de seu filho. Sheila afirmou que acompanhou a filha na contratação do profissional e que, depois disso, ele passou a insistir em contatos fora do ambiente profissional. “Nós fomos até o escritório dele porque ela precisava entrar na Justiça por causa da criança. Depois disso, ele começou a ligar para ela uma, duas, três horas da manhã. Ela chegou a me dizer: ‘Mãe, acho esse homem meio carente comigo, porque ele vive me ligando’”, relembrou. A mãe afirma que o ex-companheiro de Tainá chegou a conversar com o advogado. “Ele pediu para que não se aproveitasse daquele momento porque ela era cliente dele e ainda existia a possibilidade de eles reatarem o relacionamento. Mas ele continuou insistindo”, disse. Para Sheila, o advogado se aproveitou da vulnerabilidade emocional da filha. “Ele se aproveitou da fragilidade da minha filha. Não deu mais paz para ela nem para nossa família”, afirmou. Família diz que comportamento do investigado era agressivo Sheila contou que nunca conseguiu confiar no namorado da filha. “Eu falava para uma amiga que não confiava nele. Ele tinha um jeito muito agressivo. Minha filha achava que eu não gostava dele, mas não era isso. Eu tinha medo dele”, disse. Segundo ela, o advogado costumava chegar na casa da família gritando e, algumas vezes, chegou a quebrar portas da residência. “Ele veio aqui e quebrou a porta da minha casa para entrar. Em outra ocasião, quis mandar dentro da minha casa. Eu precisei mandar ele se acalmar”, afirmou. A mãe disse ainda ter ouvido relatos de que o investigado já teria apresentado comportamento violento em relacionamentos anteriores. “Fiquei sabendo que a ex-mulher dele também sofreu violência. Não sei detalhes do processo, mas ouvi dizer que ele já tinha medida protetiva contra ele”, declarou. Além da violência física, a família também relatou sobre a violência patrimonial, onde o suspeito teria estourado o cartão de Taina e quebrado o celular dela. Família rebate versão sobre tentativa de suicídio Durante entrevista concedida após ser preso, o advogado afirmou que Tainá teria tentado tirar a própria vida anteriormente. A família nega categoricamente essa versão. “Isso não é verdade. Ela teve um relacionamento anterior, que terminou normalmente. Ela voltou para a casa da mãe e seguiu a vida dela. Nunca houve essa história de tentativa de suicídio”, afirmou a tia da vítima, Joysse Farias dos Santos. “Ela não vai ser mais um número” A família afirma confiar no trabalho da Polícia Civil, mas teme que o caso seja esquecido após o período inicial de repercussão. Joysse contou que, durante a manifestação realizada na Deam, a delegada informou que novas testemunhas serão ouvidas durante o prazo da prisão temporária e pediu que qualquer pessoa com informações procure a polícia. Mesmo assim, ela diz que a família continuará acompanhando o caso. “A gente não quer que isso caia no esquecimento. Hoje todo mundo fala, mas daqui a um tempo as pessoas esquecem. Nós não vamos esquecer. Ela não vai ser mais um número nas estatísticas de feminicídio”, afirmou. Ela também disse esperar que o investigado permaneça preso. “Eu não quero vingança. Eu quero justiça. Quero que ele responda pelo que fez e sinta as consequências dos atos dele. Porque, se sair, pode fazer isso novamente com outra mulher”, disse. Investigação continua A Polícia Civil segue investigando o caso como feminicídio. Segundo o delegado Kleidson Castro, responsável pelas investigações iniciais, inconsistências na versão apresentada pelo suspeito, a natureza do ferimento encontrado em Tainá, o estado do sangue no apartamento e o tempo decorrido até o acionamento do socorro reforçaram a suspeita de homicídio. A investigação também apura possíveis episódios anteriores de violência doméstica envolvendo o casal. Imagens de câmeras de segurança, laudos periciais, análises da arma utilizada e depoimentos de testemunhas serão fundamentais para a conclusão do inquérito. A defesa de Wlandre Gomes Leal informou que irá se manifestar somente após analisar os desdobramentos da investigação. Até o momento, o caso segue sendo tratado pela Polícia Civil como feminicídio.